Foi diferente de há 15 anos. Costumava ir de carro para o Ceará com primos ou amigos, curtindo a juventude no litoral do nordeste. A desculpa era visitar minha avó em Fortaleza. Mas o que eu gostava mesmo, além de todas as delícias de casa de vó para os cinco sentidos e ainda para o sentido do coração, era de conhecer o mundo ao meu modo, longe das imagens da TV. Armava minha rede ao pé de coqueiro mais próximo do mar e dormia sob a lua e estrelas cadentes até que o sol finalmete tingisse o céu de vermelho e amarelo e espiasse por cima do espelho Atlântico.

Muito mudou neste tempo. A maioria dos vilarejos cresceu, alguns se emanciparam, as praias estão mais cheias – e mais sujas -, há mais pessoas e carros nas areias e estradas e as regras de trânsito estão mais rígidas, mas a maior diferença ficou por conta da minha tripulação. Agora meu copiloto tinha 11 anos e seu mapa era um atlas escolar. Chama-se Felipe. No banco de trás seus irmãos, com 9 e 8 anos. Seus nomes: Micael e Bianca. Para completar a equipe, sua vó, que resolveu comprar a própria barraca e, ao invés de nos esperar em Fortaleza, vinha conosco no carro.

Estávamos espremidos em 9 dias e 8 noites de viagem, pois tínhamos um compromisso no Ceará. Sabia que não era o ideal, mas sim, era possível de ser uma viagem gostosa, bela e marcante, como a vida deve ser. Planejamento é a chave de qualquer expedição. Perguntem ao Amir (Klink). Claro que eu não ia fazer o que ele faz – ainda -. Cada um enfreta seu próprio desafio e acho que este, pra minha família, foi espetacular. Não exatamente como desafio, que não deixou de ser, mas como experiência. E aqui confesso que este era meu principal objetivo. Experiência de vida e de família para os melhores filhos do mundo – como o são todos os filhos. Se não forem não os culpe, pergunte-se primeiro se eles têm os melhores pais -.

Espremidos também estaríamos no carro, onde passaríamos boa parte do tempo. Peguei um DVD player portátil e alguns filmes, que apesar de úteis não posso afirmar que seriam necessários. A criatividade de uma criança é capaz de superar muitos roteiros, só precisam de estímulos. Estes não faltariam, viessem dos irmãos, do pai, da vó ou da janela, estariam sempre lá. Assim, entre as muitas brincadeiras, tínhamos a bordo uma rádio alternativa mirim com cantores, repórteres e convidados especiais que arriscavam até a previsão do tempo.

Ironicamente a longa viagem de carro começou no aeroporto, onde encontrei as crianças vindas de Cuiabá. Ainda no estacionamento entreguei alguns presentes de natal: Sacos de dormir, isolantes térmicos e cantis, a bola, o DVD e um livro. Alguns meus, outros do Papai Noel - Papai Noel existe, papai? Se a gente acreditar ele existe. - Eu gosto de acreditar. Não só em Papai Noel, mas na fantasia das crianças. No geral tento concordar com tudo o que eles dizem que existe, mas sem hipocrisia, que eles nem sabem o que é, mas podem nunca esquecer a falta de sinceridade.

Primeira noite: Rio de Janeiro. Ironia de novo. No apartamento onde morávamos a mudança já tinha sido feita e este estava completamente vazio. Resultado, dormimos na varanda, acampamos na própria casa. Um bom aquecimento para os dias que viriam. De manhã as crianças trocaram as malas por mochilas, nos abastecemos de açaí e pão na chapa e saímos para explorar as praias deste Brasil. Quem sabe o nome daquela cadeia de montanhas ali? - Cadeia!? Que cadeia, papai? - Cadeia de montanhas, é quando são várias montanhas formando este muro aí. Assim seguia a viagem entre jogos, brincadeiras e observações. Quem acha o primeiro jegue? Quem sabe a capital do Espirito Santo? Quanto é 12+14? Há quantos dias já estamos viajando?

Tudo na vida tem o seu ritmo. O sol, a lua, as estrelas, a chuva, a maré, a noite, as ondas, o surf, as flores na primavera e as também crianças. Principalemte as crianças. Precisei de alguns dias para aceitar que era uma viajem solar e que eu precisava do dia na sua totalidade. Sua luz já aparecia as quatro e meia da manhã, mas a esta hora quem é que quer sair da rede? As crianças? Na verdade nem eles, mas eu os chamava e vinham bem dispostos. Desmontar acampamento demorava uma boa meia hora. Quando deitávamos os pneus na estrada o sol vinha lambendo o oceano. O Pequeno Príncipe de Exupéry teria gostado de nos acompanhar. Teria sido apresentado ao nascer do sol. Sobre o mar. O céu vai do azul marinho profundo ao ciano claro. As estrelas se apagam e os coqueiros, a areia e as ondas começam a se desenhar. Perto do horizonte o violeta acende-se, passa a vermelho, escuro como sangue, e depois se abre laranja. Entra o amarelo e o céu está preparado para receber o astro rei. No nordeste ele já nasce quente. Seu tapete brilha no mar e as ondas repetem incansáveis o seu mantra. Sentem-se, meus pequenos príncipes e princesa. O que querem, filhos, no café da manhã?

Era assim todos os dias. Com o sol nascendo montávamos nosso piquenique. Já tinhamos tudo separado em duas pequenas caixas que carregávamos sem dificuldade até alguma mesinha em algum lugar paradisíaco. Um bom mapa de praias atualizado é fundamental quando não temos tempo para experimentar demais. Sugiro ainda, e eu não tinha, um isopor. Nessas caixas: pratos, canecas e talheres, suco, futas, cereais, pão e margarina e, comprados na véspera, leite, iogurte, presunto e queijo. Café da manhã de hotel servido na areia da praia com banho de mar, castelinhos, pega-pega e futebol até o sol esquentar.

O sol aqui é bravo, quando apertava nos enfiávamos no ar condicionado e puxávamos mais uns 250km de estrada. Não, não era bem assim. Para ser sincero não me baseava em distâncias, tempo ou temperatura, mas numa versão doméstica de FIB (Felicidade Interna Bruta). O conceito de FIB nasceu no Butão, um pequeno – e para muitos, tristemente, insignificante – país no Himalaia, fronteira com Tibet e India e muito próximo ao Nepal. Sua proposta é que o desenvolvimento de um país depende de sua evolução espiritual além da material. Pois bem, conhecendo este litoral e com três bons mapas, além do atlas escolar do copiloto, tentava escolher os melhores e mais bonitos pontos de parada. Normalmente parávamos nas refeições e o jantar costumava ser no ponto do pernoite.

Há alguns vários anos, antes de qualquer indício de cabelo branco, dor nas costas e filhos, como já disse, o Brasil era um pouco diferente. Para dormir bastava um coqueiro. As redes eram armadas entre este e o jipe, o céu nos cobria e a brisa espantava as muriçocas, como se diz no Ceará. Estrelas cadentes enfeitavam nossos sonhos e o céu iluminava-se quando era hora de acordar. Hoje segurança é artigo raro e é preciso muito mais que apenas um coqueiro para se chamar de hotel. Ainda assim consegui uma noite as antigas. Eu sempre gostei de dormir ao relento, mas os pequenos adoram barraca. O Felipe negociou com a vovó e ficou sozinho na barraca dela, que foi se espremer no meio dos outros dois que, por sua vez, adoraram um adulto por perto. Todos instalados na areia, de frente pro mar, prontos para uma noite de sono sob o encanto das ondas. A lua ainda está quase cheia prateando o dormir das crianças. Quanto a mim, meu coqueiro está ali, ao lado do carro, e minha rede negra traz o carinho das mãos de minha vó, que a confeccionou há muitos anos especialmente para minhas "aventuras".

Não me considero aventureiro, apenas não me dou muito bem com paredes e gosto de conhecer o mundo parando no vilarejo que eu bem entender. Foi assim que notei que mesmo as pessoas de rosto marcado pela vida e castigadas pela seca estão sorridentes e disponíveis. Quase sem dinheiro são classificados como miserávies por ganhar menos de 1 dollar por dia, mas seu sorriso costuma ser sincero e mais feliz do que o de muitas das pessoas que conheço. Vale Verde é minúsculo, fica na Bahia bem pertinho de Trancoso. Também tem o seu quadrado, sua capelinha, seus mastros e seus vários anos de história. E tem o seu povo hospitaleiro que, diferente das vilas vizinhas, quase não recebe turistas, apenas os ve passarem na estrada. Ali no quadradinho, com o piquenique reforçado pelas bananas e maçãs da venda da esquina, conhecemos o seu Geraldo – Seu xará, papai! - Pessoa mais simples seria difícil de encontrar. Foi se chegando sem pressa, como todo bom bahiano, e ficou ali conversando enquanto tomávamos café. Bianca, mesmo desconfiada, gostou dele. Fomos conhecer sua casa, que tinha apenas paredes, telhas e um sofá velho. Não me lembro de ter visto seu colchão. No quintal conversava com minha filha que em algum momento falou que na escola estava estudando o cacau. Ele apenas disse: Olhe para cima, menina, sabe que fruta é esta? Ela estava sob um cacaueiro carregado. Seus olhos brilharam e quando nos despedimos trazia duas frutas nas mãos e uma pitada de amor no coração. O mesmo coraçãozinho que na noite anterior tinha encontrado muitos antigos amigos, conquistados nas férias do ano passado.

Reencontros tem magia, minhas crianças percebem. Estão soltas novamente no mesmo espaço de um ano atrás. Como dizia uma antiga moradora da época em que Trancoso era ainda apenas o quadrado: "criar crianças aqui é como criar galinhas, coloco pra fora quando acordo e recolho na hora de dormir". E ali ficam todos se conhecendo do seu jeito, explorando o seu pequeno vasto mundo a sua maneira, interagindo, aprontando, alegrando-se, decepcionando-se, rindo, reclamando, brincando e fazendo as pazes. Identificam da mesma maneira os amigos de um ano atrás e divertem-se como se o tempo não tivesse passado. Estão maiores, alguns já pensam até no primeiro beijo, correm em meio aos milhares de turistas elegantes, com roupas coloridas, de todas as idades e países. Este é um espaço singular, eclético, incrível. Olho para a igrejinha e as velhas casas ao redor. São quase da idade do Brasil português. Fico em dúvida. Terá mesmo passado o tempo?

Perto de Salvador foi o Felipe que lembrou: Meu padrinho mora aqui, papai. Mas não passamos pela cidade. Eu pretendia chegar perto de Sergipe, mas avistei uma placa. Compadre, estou vendo uma placa que diz Barra do Jacuípe 10km. - Ge? Você está aqui? Indo pra onde? Com quem? Pois pare logo este carro que quero dar um beijo em vocês! - Deu beijo, deu abraço, deu banho de piscina, deu jantar, deu cama, deu pouso, deu tudo o que seria possível naquele fim de tarde. Deu carinho e presença que as crianças não vão esquecer jamais. O carinho das portas sempre abertas que as grandes cidades estão enterrando. Temos ar condicionado para o verao, aquecimento para o inverno, bolha metálica para andar, telinha mágica para falar, telona mágica para distrair e todo o tipo de trancas para se proteger. Até aí tudo bem, mas não podemos esquecer que não estamos sozinhos.

Crianças sabem disso. Aliás o que não sabem muito bem é para que servem as portas, sempre abertas. Micael e Bianca são um pouquinho reservados por 15 minutos, mas o Felipe não sabe que existem fronteiras, linhas, limites, bordas e distâncias entre duas pessoas. Onde chega é notado e não passa por lugar algum sem conhecer alguém. Faz amigos em qualquer lugar. Mas era minha vez. Apresentei amigos feitos no Panamá. As crianças já tinham ouvido falar do moço que pediu a goiabada e a moça que pediu uma buzina de bicicleta, sabem que Panamá é um país e que lá o papai pedala a noite pelas ruas da cidade, mas acho que não esperavam conhecer estes amigos tão cedo. Subimos algumas ladeiras e almojantamos uma deliciosa peixada com vista para o Recife por sobre as telhas tortas de Olinda, feitas antigamente nas coxas dos escravos. Tento fazer com que cada lugar tenha algo de especial para que mereça atenção da memória. No sítio, mais tarde, Andaram a cavalo, brincaram com a jeguinha, conheceram o bezerrinho de dois dias, perderam o medo dos cachorros, comeram jambo, desviaram dos sapos tomamos banho, conversamos e fomos pra cama. Mas antes, enquanto esperávamos a peixada, as crianças foram sozinhas na feirinha e me trouxeram um presente comprado com o dinheirinho da própria mesada. Me entregaram tão felizes que até hoje seguro as lágrimas quando me lembro.

Chegou o último dia. Hoje eu dirigiria a noite, o que vinha evitando. Muitas estradas do Nordeste são cheias de surpresas e animais de grande porte como vacas e jumentos. Teria de andar bem devagar. Mas isto seria depois porque agora estamos na Barra do Cunhaú, daqui até a praia da Pipa é para mim um dos lugares mais bonitos de todo o litoral brasileiro. Água azul turqueza digna de Caribe sem toda aquela transparência, pois não foi pintado com aquarela. Foi pintado com tinta óleo assim como as falésias vermelhas e amarelas, o céu sempre azul, algumas nuvens e areias brancas, e a vegetação densa. Definitivamente a Pipa foi uma pintura antes de tornar-se praia.

Almoçamos em um restaurante pé na areia, como sempre, sentindo-nos Deuses olímpicos a quem são oferecidas algumas regalias a que mortais não tem direito. Aproveitamos a areia e o rio, brincando na correnteza da maré. Aproveitamos o peixe servido em panela de barro. Aproveitamos o sol, a lua, as estrelas. Aproveitamos a vida na companhia de pessoas queridas. Montamos acampamento, fizemos piquenique em praias lindas, de dia e de noite; almoçamos em restaurantes a beira d'água – e beira de estrada também -; conhecemos pessoas novas, simples e nem tão simples; trocamos presentes – o cacau da Bianca foi retribuído com mangas que tinhamos colhido no dia anterior -; hospedamo-nos em casas de amigos, campings, praia e um apartamento vazio; paramos onde quisemos, brincamos em muitas praias diferentes; vimos o sol nascer algumas vezes e se por outras tantas; perdemos duas bolas, passamos por nove estados e nove capitais de estado; tomamos banho no Velho Chico; reclamamos do monte de lixo; ouvimos algumas histórias, umas críveis outras nem tanto; seguimos roteiro e improvisamos. Tomamos banho em chuveiros, mar, rios, riachos e bicas - e perdemos um banho num rio que hoje está poluído -; conhecemos lugares famosos, exóticos e bonitos, vilas praticamente esquecidas e cidades grandes. Estivemos no Ponto mais oriental das américas, onde o sol nasce primeiro. Teve gente que subiu em coqueiros, esfolou o peito, mas trouxe quantos cocos conseguiu carregar. Teve gente se enroscando em água viva e ficando com medo do mar. Teve gente com insolação, gente que não trouxe roupa suficiente, gente dormindo pouco, gente querendo comer demais, gente dormindo sozinho na barraca, gente não, gente inventando brincadeira, gente ajudando, brigando, reclamando, sorrindo, conversando e no fim, vencendo este desafio, que foi, em família. A experiência que eu ingenuamente julgava que seria mais forte para as criaças, me puxou pelos cabelos e entrou sem pedir licença. Não sei o que vamos lembrar disso tudo, mas sei que muita coisa não vai ser esquecida, ainda que fique muito bem guardada lá no fundo da memória, numa região inacessível ao consciente.

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Vogue (março 2013)

Pé na Tábua

texto - Vogue